Harry Potter (HBO)

Quando eu e todo mundo da minha idade vivíamos o auge da Pottermania, sempre fora nosso sonho que uma série de TV, em vez de filmes, fosse o meio escolhido para adaptar os sete livros. Há simplesmente personagens demais e enredo demais para fazer jus em oito filmes. Além disso, a história combina mais com o formato seriado. Harry Potter é, na verdade, uma mistura de história de detetive, slice of (school) life e coming of age, tudo numa embalagem de fantasia. É a riqueza de detalhes que faz os mistérios serem divertidos e justos. É a evolução das relações entre personagens que faz o mundo mágico parecer vivo, rico e real.

Apesar do carinho cultivado ao longo dos anos, todos os fãs concordam (ou deveriam concordar) que a adaptação cinematográfica (2001~2011) é narrativamente inferior, menos completa e menos coesa que os livros. Ela tem, é claro, o seu valor, e a equipe envolvida merece admiração pelos grandes feitos que alcançaram e o legado que deixaram. Mas muitas decisões criativas no mínimo questionáveis (prejudiciais) foram tomadas para cortar ou alterar elementos importantes. Eu chamaria de um produto de sua época. Foi iniciada antes da publicação dos últimos volumes e, portanto, do final da saga (2007). Numa história como HP, entender o conjunto da obra — como cada linha de enredo se entrelaça e se conclui — é fundamental. Como um quebra-cabeças, o todo só alcança seu potencial máximo com todas as peças. É claro que o tempo de tela do cinema é limitado para livros tão longos, mas qual seria a outra opção? Na primeira década dos anos 2000, histórias que precisavam de maiores orçamentos não tinham opção a não ser recorrer à sétima arte.

“Os filmes adaptaram os livros para caber no formato, no orçamento, nas limitações de tempo e tecnologia, e para permitir que os cineastas colocassem sua própria identidade e selo criativo neles. Para a série da HBO, o tempo é mais acomodador, a tecnologia avançou, o orçamento é enorme e a equipe de produção está dedicada a expandir o mundo dos livros sem alterá-los.”

Amanda Kirk (do fansite The Leaky Cauldron), que visitou os sets de gravação da série

Desde então, vimos o orçamento possível da televisão explodir (mais expressivamente que o do cinema, que nos últimos anos também chega a níveis impressionantes e, às vezes, insustentáveis), passando de 1 milhão de dólares por episódios para até 50 milhões em menos de 30 anos. A própria HBO faz parte dessa história, com sua estratégia de investir no que chamam de “TV de prestígio”: qualidade, espetáculo, criatividade e equipe de ponta. GAME OF THRONES (2011~2019), outra adaptação de livros longos com sets imensos, locações e efeitos visuais complexos, é talvez o exemplo mais notável.

Prevista para estrear no Natal, a primeira temporada de HARRY POTTER (HBO) contará com oito horas para adaptar o primeiro livro. Compare isso com as 2h30 do filme e as 8h do audiolivro. A promessa da HBO é de uma adaptação autêntica aos livros, “um nível de detalhe e profundidade apenas oferecido por um série de TV” (palavras da autora). Planejada para durar 10 anos, espera-se que se torne eventualmente a série mais cara da história, ultrapassando O SENHOR DOS ANÉIS: OS ANÉIS DE PODER (2022~) da Amazon. Isso se reflete em contratos longos com toda a equipe e construção de sets deslumbrantes e detalhados para durarem os dez anos de filmagem e serem reutilizados. Se você ainda não sabe muito a respeito, ou não está totalmente convencido do potencial, espero que eu consiga te informar e te convencer (com fontes oficiais) que estamos prestes a vivenciar o extraordinário. JB Perette, o CEO de streaming da Warner, descreveu o projeto como “teatral em um nível totalmente diferente, o maior evento televisivo da história, é o número um, dois e três de muitas maneiras”. Eu entendo que executivos querem nos vender seus próximos lançamentos, mas eles também são aversos a risco o suficiente para não usar exageros tão ousados em público. Eles estão extremamente confiantes mesmo, e, dado o que sabemos sobre a equipe, eu também ficaria.

Francesca Gardiner é a showrunner, profissional responsável por manter a coerência geral da série e comandar o time de diretores, roteiristas e produtores. Com experiência em séries muito elogiadas como SUCCESSION e HIS DARK MATERIALS (essa última também uma adaptação de série de livros de fantasia), conseguiu o posto após um longo e disputado processo seletivo. Além de fanática pelos livros, seus colegas descrevem sua mente como a de uma enciclopédia ilustrada, permitindo que ela veja as muitas camadas de uma história ao mesmo tempo. Dizem também que ela vê roteiros como jardins japoneses, em que palavras são cuidadosamente compostas e posicionadas de maneira meticulosa. Ela é contra tratar crianças com condescendência e higienizar aspectos mais sombrios de uma história — em Harry Potter, isso tem de monte. Ela espera que sua adaptação seja fiel sem hesitações e sente fortemente que precisa honrar os livros. Ela, o diretor Mark Mylod (THE CROWN), o produtor dos filmes David Heyman e o trio que eu chamo de J.K.lub — Rowling, seu agente literário e a responsável por suas adaptações audiovisuais — formam o time de produtores executivos.

Holly Waddington (POBRES CRIATURAS), a designer de figurino, foi a primeira contratação criativa. Ela se especializa em roupas de época com um tchan moderno. Executivos da Warner descrevem a produção como muito especificamente britânica e anos 90. Sempre me incomodam as roupas genéricas e contemporâneas demais dos filmes (para mim, eles se passam nos anos 2000 em vez dos anos 90 como deveria ser). Pelo que vimos dos vazamentos, a caracterização será bem de época e colorida. E sabemos que nostalgia é uma arma poderosa para entrar nos corações das pessoas, não é? Se tivemos STRANGER THINGS para os anos 80, teremos HARRY POTTER para os anos 90. Também ficamos sabendo de um esforço em utilizar fibras naturais e texturas que remetam à etnia de cada personagem e às terras altas da Escócia, localização da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

Mara LePere Schloop (ENTREVISTA COM UM VAMPIRO) é dona do nome mais legal do mundo e designer de produção da série. Ela se descreve como “consumida por pesquisa, personagem e colaboração maleável”. Mara recebeu dos produtores a missão de cavucar cada cantinho e fresta de Hogwarts, para que transborde pela tela a sensação de que aquele é um lugar real e vivido. Os cenários são enormes, lindos e conectados. Por exemplo, o set do Beco Diagonal contém não apenas a rua comercial bruxa, mas também o pub Caldeirão Furado, o banco Gringotts, a loja de roupa da Madame Malkin e a loja de varinhas do Olivaras. Una isso à preferência do diretor por usar o movimento dos personagens para revelar a paisagem, em vez de deixar a câmera independente, e podemos esperar muitos planos-sequência acompanhando, por exemplo, o caminho dos alunos entre as salas de aula.

Parte do cenário de Hogwarts. Perceba que são dois pátios conectados entre si e cada um conectado com mais um estúdio interno.

E temos brasileiro na liderança criativa! Adriano Goldman (STAR WARS: ANDOR) cuida da cinematografia e já revelou que a série será mais vibrante do ponto de vista global da imagem. Vivemos tempos de um cinema pouco colorido e com pouco contraste, e os próprios filmes de HP também foram vítimas de uma fotografia difícil de enxergar e de aspecto lavado (obrigado, David Yates!). É um alívio saber que estão indo na direção oposta. Ele também prioriza um tratamento visual mais realista, com muitas soluções realizadas em câmera em vez de computação gráfica. Substâncias fotoquímicas e pirotecnia serão utilizadas como efeitos práticos para mostrar a magia emergindo de elementos da natureza.

Não dá nem para escrever individualmente sobre os atores e atrizes; ficaríamos aqui até amanhã. A escolha de elenco parece ter sido cuidadosa e detalhista, com números impressionantes como as quase 50 mil inscrições para o trio de ouro. Foram escalados personagens cortados do filme, como Pirraça e Professor Binns, e também personagens que não possuem falas e só são citados no livro, como Nicolau Flamel e sua esposa Perenell, Lisa Turpin (quem?) e a versão adulta do Rony, que aparece no Espelho de Ojesed. Além disso tudo, também há um grupo de figurantes mirins para dar volume à vida escolar de Hogwarts. Nos estúdios, uma escola com capacidade para 600 alunos foi construída, para que as crianças e adolescentes possam continuar seus estudos enquanto trabalham. Dito isso, o elenco principal é composto pela nata do talento britânico, e era pré-requisito para ser contratado ser um grande fã da saga. Podemos esperar também mais destaque e tempo de tela ao alento adulto e às relações entre eles. Veremos, por exemplo, Dumbledore investigando a invasão ao Gringotts e cenas na sala dos professores (e nas salas de cada um deles). O diretor Mark Mylod preza por investigações psicológicas e comportamentais profundas da psiquê dos personagens (geralmente pessoas terríveis, mas sem romantizá-las), contrabalanceando intimidade e grandiosidade e relacionando temas de poder e família.

Mas, afinal, será mesmo fiel aos livros?

Se por “fiel” você quer dizer uma recontação linha por linha dos livros, não. Os livros são quase estritamente escritos na perspectiva do Harry, mas veremos outros pontos de vista, como Hermione recebendo sua carta de Hogwarts e Draco na mansão dos Malfoy. E o caso mais infame: a caracterização de Severo Snape, que agora é um homem negro. Isso pode trazer questões raciais que não estão presentes na obra original, além de ter um segmento barulhento de “fãs” que exigem a substituição por um ator branco (não vai acontecer) ou até ameaçam de morte o ator. Como é a única decisão criativa arriscada em meio a tantas escolhas perfeitas de elenco, prefiro esperar para ver como abordarão essa questão na série.

Também é fato, é claro, que cada mídia possui suas particularidades. O que funciona num livro não necessariamente funciona na TV e vice-versa. Mas podemos ter certeza de que teremos cenas muito pedidas pelos fãs, que foram cortadas ou alteradas no filme, como o duelo da meia-noite, a fuga completa dos Dursley das cartas e a partida de quadribol em que Snape apita, como mostrado na primeira foto em cenário da série. E isso que estou citando apenas exemplos da primeira temporada. Há ainda mais oportunidades como essas nas temporadas seguintes. Segundo executivos da Warner, quando o público assistir à série, pensará: “estes são os livros”.

E para abordar a última polêmica: sim, Rowling é anti-trans. Mas o mundo está cheio de propriedades intelectuais comandadas por pessoas com posicionamentos políticos complicados, e não vemos o mesmo nível de revolta. Consigo apreciar que ela é responsável por uma parte muito importante da minha constituição independentemente de suas posturas pessoais mais recentes. Aos que acham que um boicote surtirá efeito, sinto em informar (não sinto) que Harry Potter vai muito bem, obrigado. Hogwarts Legacy se tornou o jogo mais vendido do ano, chegando à marca de 40 milhões de cópias, e a Pottermore Publishing bateu recorde de faturamento no ano passado. Os filmes e livros continuam e continuarão sendo consumidos e relançados. O merchandising, os parques temáticos e as outras experiências relacionadas continuam sendo atualizados e são bastante rentáveis. A expectativa é isso só aumentar com o advento da série.

Por fim, mais um aviso óbvio mas que, com a quantidade de pessoas que consome apenas (ou primariamente) os filmes, precisa ser dito: os filmes não vão a lugar algum e continuarão disponíveis. A ideia não é substituí-los. Eles não são a obra original, os livros são. Agora terá apenas mais uma mídia (com mais possibilidades). Se você ama os filmes, nada muda para você, ok?

Se você não se empolgou com as informações que expus aqui, espero que a série te convença quando lançar. Ao que tudo indica, essa série reorientará o nível de produção da TV de prestígio (e ganhará muitos Emmys?). Para as pessoas que acham que o reboot é desnecessário ou cedo demais, eu digo: não há época melhor que hoje para adaptar Harry Potter.

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